Arquitetura residencial no Brasil: um balanço crítico de 2025

Uma leitura curatorial do ano, escritório por escritório
Por: Equipe Artivio ·

O que 2025 revelou sobre a casa brasileira

Em vez de buscar o gesto chamativo, muitos projetos residenciais em 2025 voltaram a apostar no que sustenta a arquitetura no tempo: proporção, percurso, luz natural, conforto ambiental e uma construção que não depende de truques para ser convincente.

Isso não significa uma arquitetura tímida. Significa uma arquitetura mais responsável com o uso e com a matéria. Quando o mercado empurra soluções genéricas, cresce o valor de quem desenha a casa como experiência: transições, sombras, pátios, filtros, silêncio e precisão.

Este artigo evita os nomes já consagrados e olha para um campo mais real do presente: escritórios com produção consistente e discurso claro, que em 2024 e 2025 ganharam força editorial, amadureceram linguagem ou demonstraram um salto perceptível de qualidade.


10 escritórios residenciais em evidência em 2025

1. Estúdio Flume

Leitura: contenção formal, luz como matéria, silêncio espacial.

Casa do Artista, projeto residencial do Estúdio Flume
Casa do Artista, Estúdio Flume. Crédito: Estúdio Flume · Foto conforme publicação no estudioflume.com

O Flume se firma como um dos escritórios mais observados do momento por uma razão simples: a arquitetura não tenta aparecer. Ela se impõe pela clareza. Em 2025, o que se percebe é um domínio maduro do essencial: poucos gestos, bem calibrados, e um desenho de luz que organiza o espaço ao longo do dia.

O impacto vem da consistência, não do efeito. As casas tendem a trabalhar sequências limpas, planos bem resolvidos e materialidade que reforça o clima do lugar. O resultado é uma arquitetura que parece fácil, mas não é: ela depende de precisão.

2. BLOCO Arquitetos

Leitura: estrutura como narrativa, espaços intermediários, rigor construtivo.

Projeto residencial do BLOCO Arquitetos
Estrutura, sombra e transições: a casa como consequência do sistema construtivo. Crédito: BLOCO Arquitetos · Foto conforme publicação no Archdaily

Em um país onde muita casa é pele e imagem, o BLOCO segue lembrando que arquitetura é estrutura, clima e permanência. A produção residencial recente mantém um pensamento firme: o projeto nasce do sistema construtivo e da leitura do território.

Em 2025, a qualidade aparece nas transições: sombras, varandas, pátios e filtros que seguram o calor, modulam a ventilação e transformam o habitar em algo sensível. É uma arquitetura de confiança: não depende de modismo para se justificar.

3. FGMF Arquitetos

Leitura: tipologias em tensão, clareza volumétrica, inteligência urbana.

Projeto residencial do FGMF Arquitetos
Volumes em tensão e vazios estratégicos: a casa como construção de ritmo espacial. Crédito: FGMF · Foto conforme publicação no Archdaily

O FGMF mantém relevância porque não se acomoda. Mesmo quando trabalha programas residenciais tradicionais, o escritório busca deslocar o óbvio: cortes, encaixes, pátios, vazios estratégicos e volumes que constroem um ritmo espacial claro.

Em 2025, o que chama atenção é a habilidade de equilibrar experimentação com legibilidade. Há uma arquitetura que se arrisca, mas não se perde. A casa, no fim, continua sendo casa: bem usada, bem ventilada, bem organizada.

4. TETRO Arquitetura

Leitura: precisão doméstica, escala humana, materialidade sem exageros.

Projeto residencial da TETRO Arquitetura
A residência como campo de refinamento: proporção interna, luz distribuída e matéria sem ruído. Crédito: TETRO · Foto conforme publicação no Archdaily

A TETRO vem ganhando espaço por fazer algo raro: tratar a residência como um campo de refinamento, não de demonstração. Em 2025, os projetos evidenciam cuidado com proporções internas, circulação e permanência, sem recorrer a teatralidade.

A materialidade costuma ser contida e inteligente, com soluções que valorizam a sensação: iluminação natural bem distribuída, texturas que dialogam com o corpo e uma continuidade espacial que facilita a vida cotidiana.

5. Andrade Morettin Arquitetos

Leitura: depuração, proporção, clareza de cheios e vazios.

Projeto residencial do Andrade Morettin Arquitetos
Proporção, estrutura e detalhe: o espaço como lógica inevitável. Crédito: Andrade Morettin Arquitetos · Foto conforme publicação no Archdaily

Em 2025, o escritório reforça uma arquitetura de alta precisão: o espaço parece inevitável, como se não pudesse ser de outro jeito. Isso vem de um controle rígido de proporção, estrutura e detalhe, com materialidade direta e decisões firmes.

A residência aqui é construída por relações: plano e sombra, volume e vazio, interior e paisagem. O resultado é uma arquitetura que se explica na própria lógica.

6. MRGB Arquitetos

Leitura: linguagem contemporânea sólida, volumes claros, conforto do dia a dia.

Projeto residencial do Estúdio MRGB
Volumes legíveis e espaços que funcionam: contemporâneo sem afetação. Crédito: MRGB · Foto conforme publicação no Archdaily

O MRGB se destaca por uma combinação pragmática e rara: boa arquitetura sem ostentação de discurso. Em 2025, suas casas tendem a ser claras, com volumes legíveis e espaços pensados para funcionar com naturalidade, sem rigidez.

A atenção ao cotidiano aparece na distribuição de programas, na relação com áreas externas e em escolhas de materiais que resistem ao uso. É um trabalho que dialoga com o mercado, mas eleva o padrão do que se espera de uma casa contemporânea.

7. Hersen Mendes Arquitetura

Leitura: detalhamento, equilíbrio entre sofisticação e habitabilidade.

Projeto residencial da Hersen Mendes Arquitetura
A atmosfera nasce do desenho: luz, detalhe e uma habitabilidade sem esforço. Crédito: Hersen Mendes Arquitetura · Foto conforme publicação no Archdaily

Em 2025, o escritório segue consolidando uma produção residencial reconhecível: detalhes bem desenhados, escolhas materiais consistentes e um cuidado com a atmosfera que não é decorativo, mas arquitetônico.

A sofisticação aparece quando a casa funciona sem esforço: circulações fluidas, ambientes com boa escala e um controle de luz que valoriza o conforto. É um trabalho que costuma agradar o olhar, mas se sustenta sobretudo no uso.

8. Gustavo Costa Arquitetura (GCA)

Leitura: rigor espacial, arquitetura sensorial, percurso como projeto.

Projeto residencial do GCA
Percurso, sombra e matéria: a casa como experiência do corpo no espaço. Crédito: Gustavo Costa Arquitetura · Foto conforme publicação no gustavocostaarquitetura.com.br
Projeto residencial do GCA (detalhe)
Detalhe e atmosfera: a precisão como base do sensorial. Crédito: Gustavo Costa Arquitetura · Foto conforme publicação no gustavocostaarquitetura.com.br

Em 2025, o GCA consolida uma arquitetura residencial autoral que recusa a casa genérica de catálogo. O foco está na experiência: como se chega, como se atravessa, como a luz toca os planos, como a matéria devolve temperatura e textura ao corpo.

Em projetos como Casa TH, Casa Calhau e Casa Carpas, a linguagem aparece na fluidez dos espaços e no equilíbrio entre técnica e emoção. Não há excesso. Há decisão. A arquitetura se resolve por proporção, sombra, integração com paisagem e um desenho atento ao cotidiano.

9. Arquitetos Associados

Leitura: leitura do lugar, topografia, materialidade honesta.

Projeto residencial do Arquitetos Associados
O terreno vira partido: desnível, vistas e transições como matéria do projeto. Crédito: Arquitetos Associados · Foto conforme publicação no Archdaily

A produção residencial do escritório mineiro continua relevante por uma qualidade que atravessa décadas: a casa como consequência do terreno. Em 2025, isso segue aparecendo na forma como projetos lidam com desníveis, vistas e relações entre volume e paisagem.

É uma arquitetura que valoriza o gesto essencial e o desenho construtivo, com espaços de transição que respondem ao clima e ao uso real. O resultado costuma ser discreto, mas muito forte: casas que pertencem ao lugar.

10. MAPA Arquitetos

Leitura: rigor, sistema construtivo evidente, clareza de partido.

Projeto residencial do MAPA Arquitetos
Disciplina construtiva e coerência: quando estrutura, matéria e uso falam a mesma língua. Crédito: MAPA · Foto conforme publicação no Archdaily

Fora do eixo mais óbvio, o MAPA reforça em 2025 uma arquitetura residencial que não precisa de enfeite: a ideia é clara, a construção é clara, e o espaço nasce dessa coerência. Materiais, estrutura e uso se alinham sem ruído.

Suas casas exploram bem os espaços intermediários e as relações de abrigo e abertura. O escritório aparece como um dos mais consistentes quando o tema é arquitetura contemporânea com disciplina e personalidade.


Conclusão: a casa voltou a ser assunto sério

O saldo de 2025 sugere um reposicionamento: a casa não é apenas imagem, é permanência. Em um cenário de repetição, cresce a força de quem desenha com precisão e pensa o morar como experiência sensível, climática e cotidiana.

Os dez escritórios aqui reunidos apontam direções diferentes, mas convergem em um ponto: quando a arquitetura tem clareza de partido, a estética não é maquiagem. Ela é consequência.